
Tomando uma xícara de chá, olhou pela janela, contemplando o jardim, em profundo estado meditativo. Às vezes a solidão faz você pensar em coisas que, se fossem situações normais, nem lhe passariam pela cabeça.
Na verdade, tanto faz se a solidão é voluntária ou não - a única certeza é que faz sua cabeça trabalhar em novas idéias. Destas, algumas nem sempre são produtivas e outras tampouco aceitáveis socialmente.
E assim, uma simples dona-de-casa desfila no seu imaginário situações inusitadas para a vidinha que leva.
Algumas vezes se imagina vestida para uma festa - com aquelas jóias maravilhosas que viu naquela joalheria chique semana passada. Outras, sendo levada por um choffer (sim, porque motorista chique é em francês). Há também os momentos em que se imagina diva, de óculos escuros, na janela, tomando chá e olhando para o jardim, tentado ignorar o papparazzo que tenta flagrar sua intimidade.
Hoje, estranhamente, não imagina nada. Nadinha. Hoje ela é somente uma dona-de-casa na janela tomando chá. Sua mente está desabastecida de idéias.
Acho que gastei todas - pensou.
E assim, com o pensamento em branco, decidiu sentar no seu sofá predileto e assistir um pouco de televisão, como que para preencher aquele espaço excepcionalmente vago em seu cérebro.
Ligou a TV e, controle remoto em uma mão e xícara de chá na outra, sentou e fixou o olhar no canal predileto.
A programação não era das melhores. Assistia um filme morno e cadencioso quando pegou no sono.
Passado algum tempo, sentiu-se sacudir por uma mão urgente até que ouviu: - Vamos, ja está quase na hora do espetáculo!
Foi então em um pulo que tirou o roupão e as pantufas, subiu no salto e conferiu a maquiagem no espelho. Fazendo vento, disparou do camarim ao palco, com um sorriso confiante no rosto em direção ao seu público.
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