Não, não há o que se imaginar. Pensar já não é permitido.Dentro da rotina do escritório, M. só consegue sentir que precisa de algo novo. Algo que lhe dê emoção, que palpite forte dentro de si. Só alguma coisa muito inusitada poderia lhe tirar da inércia que sentia, como se o dia-a-dia tivesse anestesiado seu ser - diria até um poder maior que morfina, pois o efeito desta tem prazo de validade.
Procurou à sua volta alguma coisa que lhe tirasse dessa pasmaceira, um olhar solidário, ou qualquer outro sinal, porém, viu apenas outros rostos cansados e embotados. Como se todas as pessoas compartilhassem dessa mecanização da atividade mental. Todas apenas carimbavam, viravam folhas, imprimiam relatórios, e toda essa parafernália da automação de um escritório. Dados, planilhas, conferências, burocracia e mais burocracia.
Precisava escapar dali! A sobrevivência de sua identidade e individualidade dependiam disto! Não conseguia mais admitir permencer mais um dia nessa roda-viva.
Tinha vontade de fazer algo novo! Férias- pensou M. Talvez um safári ou uma viagem sem rumo pelos países do Oriente Médio. Algo que fizesse o coração bombar com mais vontade a vida por suas veias.
Decidiu então redigir seu pedido de férias ao chefe. No pedido, marcou o início de suas férias para a semana subsequente. Não queria perder mais um minuto. Estando ainda na quarta-feira, seria possível providenciar as passagens, uma mala - precisava comprar uma, pois nunca havia saído da cidade por mais tempo que um final de semana - e outras coisas que porventura virem a ser necessárias. Afinal, nem sabia ao certo do que precisaria, pois não tinha idéia ainda do seu destino. Só possuía, consigo, a certeza que precisava se distanciar de tudo aquilo o quanto antes.
Tudo isso lhe passou pela cabeça enquanto assinava o pedido de férias e se deslocava até a porta do seu chefe.
Estacou em frente à porta do chefe. E agora? Como começaria o assunto? Ele que, até o momento, mal havia olhado sua chefia olho no olho.
Não precisou pensar muito nisso. A porta se abriu no mesmo instante e o olhar inquisidor do seu chefe - calvo e grandalhão - pousou sobre ele.
Sem dizer "oi" ou "bom dia", M. logo disparou: -Aqui está meu pedido de férias!
O chefe levantou as sombrancelhas com olhar de surpresa, sem saber o que articular como fala.
Pegou o papel em silêncio, retornou à sua mesa, sentou, fez sinal para que M. também entrasse e falou com sua voz de trovão: - Entre, por favor, e feche a porta.
E M., desajeitado, sentindo que toda sua coragem havia se esvaído naquela única fala, fechou a porta e dirigiu-se à cadeira em frente à mesa do chefe, não sem antes tropeçar no tapete. Sentou pouco à vontade e aguardou o veredicto.
O chefe pousou os olhos no papel, levantou a sobrancelha como se esta lhe erguesse a cabeça e, olhando para M., perguntou: -Enfim, achei que iria ter que lhe impor suas férias novamente esse ano.
E ouvido isto, M. apenas conseguiu esboçar um meio sorriso amarelo, acompanhado com um suspiro de alívio. Pensou consigo que fora mais fácil que imaginava.
Viu o chefe assinar e em seguida entregar o pedido: - leve ao RH para que providenciem a papelada.
Quando já estava saindo, veio, como uma faca cortando o ar, a pergunta: - O que fará nas suas férias? Vai viajar?
Diante dessa pergunta inusitada, M. só conseguiu balbuciar uma resposta: - Vou sim.
- Para onde? - perguntou o chefe.
- Para o Oriente Médio. - se pegou respondendo sem pestanejar.
Outra levantada de sombrancelha. Com um ar de surpresa na voz, o chefe desejou boa viagem.
Então M. saiu pela porta, agora com o andar mais aprumado, se sentido mais valente do que há dez minutos atrás, sentou-se em seu lugar, trabalhou o resto do dia com mais leveza e, no final do expediente, conseguiu até cantarolar uma musiquinha enquanto ia para casa.
E nessa distração nem reparou que o sinal abriu. Dessa forma, também atravessou a rua sem perceber o táxi que vinha em sua direção.
Ouviu-se, então, depois, um baque surdo. O som de um corpo caindo ao chão. A multidão - como de costume - se aglomerou em torno do acidente. E no meio, M. jazia sem vida no chão.
Logo chegou o serviço de emergência, que retirou o corpo do asfalto e levou para a ambulância. Conferiu-se a pulsação. Nada. Um socorrista olhou para o outro e ambos tomaram nota da hora da morte - 18:30h de 22 de outubro de 2008.
Cobriram o corpo, não antes de perceber um leve sorriso de satisfação nos lábios do falecido.
(homenagem à Clarice Lispector)
Engraçado. Não tenho pena do M.
ResponderExcluirAcho que, se você está feliz e nada fez para que a felicidade seja enganosa, por que não?
Morreu feliz; quem gostaria de morte diferente?
Parabéns. Gostei bastante.
Gosto do seu estilo de escrever. Tem ritmo, tem textos explicativos e paralelos ao principal que não se perdem.
Tenho certeza que, quando este texto amadurecer com o tempo, pois toda a obra literária é como uma fruta que precisa de maturação fora do pé que a gerara, você vai descobrir minibobagens que advêm da saturação de escrever tanto, como repetições de palavras.
Volto a dizer. Não há o que corrigir, pois é difícil ter de imaginar (ou relatar) uma história e ao mesmo tempo se programar para não ferir regras consagradas.