terça-feira, 17 de novembro de 2009

A poesia como divã

[...]Não tendo tido nenhuma ambição literária, fui mais poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético.[...]

Carlos Drummond de Andrade
Trecho de entrevista concedida para o Jornal do Brasil e que foi publicada no suplemento Idéias, de 22 de agosto de 1987 (cinco dias após a morte de Drummond.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Vida de mulher casada

Sabe aquela história típica das diferenças entre homem e mulher? Pois é.
Não porque seja um grave acontecido, pelo contrário, é daquelas coisas que você vai relevando, todo dia um pouquinho. Até que, esse pouquinho, fica enorme.
Sempre sou a última a deitar. Acredito que como toda mulher.
Mas hoje estou sem paciência. E para exorcizar meus demônios e não acabar enforcando o primeiro cristão que eu encontrar, resolvi escrever.
O digníssimo chegou em casa, com queixa de cansaço e dor de cabeça. Sentou no sofá desde que cheguei - antes estava no computador - e ali ficou. Tava mais para corrida de lesma no sofá que propriamente sentado. Sabe quando a pessoa senta escorregando? Fixou a imagem? Foi isso aí.

Enquanto isso, eu janto, lavo a louça, dou uma organizadinha nas coisas na cozinha - e ele continua ali.
Boto a máquina de lavar roupa em um ciclo rápido, recolho a roupa seca - e tudo igual na arena das lesmas.
Não me aguento e falo: - Se está com dor de cabeça ao menos deverias te cuidar! Vai tomar um remédio, um banho, se apruma!.
E ele faz exatamente o que mando. Se apruma e avisa: estou indo deitar.
Rapidamente, olho para os lados, vejo a roupa por dobrar, a máquina terminando de bater e respondo: - E eu vou continuar aqui.
Nessas horas lembro que não tenho filhos - e me dá paúra pensar em tê-los.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A vida como ela não é



Tomando uma xícara de chá, olhou pela janela, contemplando o jardim, em profundo estado meditativo. Às vezes a solidão faz você pensar em coisas que, se fossem situações normais, nem lhe passariam pela cabeça.
Na verdade, tanto faz se a solidão é voluntária ou não - a única certeza é que faz sua cabeça trabalhar em novas idéias. Destas, algumas nem sempre são produtivas e outras tampouco aceitáveis socialmente.
E assim, uma simples dona-de-casa desfila no seu imaginário situações inusitadas para a vidinha que leva.
Algumas vezes se imagina vestida para uma festa - com aquelas jóias maravilhosas que viu naquela joalheria chique semana passada. Outras, sendo levada por um choffer (sim, porque motorista chique é em francês). Há também os momentos em que se imagina diva, de óculos escuros, na janela, tomando chá e olhando para o jardim, tentado ignorar o papparazzo que tenta flagrar sua intimidade.
Hoje, estranhamente, não imagina nada. Nadinha. Hoje ela é somente uma dona-de-casa na janela tomando chá. Sua mente está desabastecida de idéias.
Acho que gastei todas - pensou.
E assim, com o pensamento em branco, decidiu sentar no seu sofá predileto e assistir um pouco de televisão, como que para preencher aquele espaço excepcionalmente vago em seu cérebro.
Ligou a TV e, controle remoto em uma mão e xícara de chá na outra, sentou e fixou o olhar no canal predileto.
A programação não era das melhores. Assistia um filme morno e cadencioso quando pegou no sono.
Passado algum tempo, sentiu-se sacudir por uma mão urgente até que ouviu: - Vamos, ja está quase na hora do espetáculo!
Foi então em um pulo que tirou o roupão e as pantufas, subiu no salto e conferiu a maquiagem no espelho. Fazendo vento, disparou do camarim ao palco, com um sorriso confiante no rosto em direção ao seu público.

Flores de ferro











Não que não amasse as flores, isso não era verdade.
Gostava e muito.
Mas as flores lhe lembravam alguém e esse alguém as adorava.
Talvez precisasse apenas dissociar as flores desse alguém.
Que apesar de delicada como elas
Pareceu-lhe que era de ferro
Quando estraçalhou o amor em seu peito.

2009/08/31

domingo, 30 de agosto de 2009

Poeminha Bunda


Ilustração de Milton DaCosta

Se rego a flor
ou no seu rego
a flor tatuada
Regaço, recanto,
redondo reluz,
à luz da lua.
Segunda lua cheia.

Florianópolis, 24/fev/2006

Quando amanheço











Quando amanheço
a claridade invade,
(sem pedir licença)
adentrando no quarto
Como uma maré
Subindo e subindo.

Quando amanheço
a claridade, invasora,
lambe o pé da cama
escala o cobertor e
- sem piedade -
alveja meus olhos!

Não cedo, finjo descaso!
Como filho que finge não doer
a palmada pelo pai aplicada.
Orgulho? Preguiça?
Os dois.

Ao final cedo, vencido
pelo Dia, general em combate
que leva os louros da vitória
mandando embora meu mundo onírico
Onde tudo se é.
Basta querer.

Fpolis, fevereiro/2005.

sábado, 29 de agosto de 2009

Eu Não Existo Sem Você - Composição: Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes



Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você

Senhor M. - O pedido de férias

Não, não há o que se imaginar. Pensar já não é permitido.
Dentro da rotina do escritório, M. só consegue sentir que precisa de algo novo. Algo que lhe dê emoção, que palpite forte dentro de si. Só alguma coisa muito inusitada poderia lhe tirar da inércia que sentia, como se o dia-a-dia tivesse anestesiado seu ser - diria até um poder maior que morfina, pois o efeito desta tem prazo de validade.
Procurou à sua volta alguma coisa que lhe tirasse dessa pasmaceira, um olhar solidário, ou qualquer outro sinal, porém, viu apenas outros rostos cansados e embotados. Como se todas as pessoas compartilhassem dessa mecanização da atividade mental. Todas apenas carimbavam, viravam folhas, imprimiam relatórios, e toda essa parafernália da automação de um escritório. Dados, planilhas, conferências, burocracia e mais burocracia.
Precisava escapar dali! A sobrevivência de sua identidade e individualidade dependiam disto! Não conseguia mais admitir permencer mais um dia nessa roda-viva.
Tinha vontade de fazer algo novo! Férias- pensou M. Talvez um safári ou uma viagem sem rumo pelos países do Oriente Médio. Algo que fizesse o coração bombar com mais vontade a vida por suas veias.
Decidiu então redigir seu pedido de férias ao chefe. No pedido, marcou o início de suas férias para a semana subsequente. Não queria perder mais um minuto. Estando ainda na quarta-feira, seria possível providenciar as passagens, uma mala - precisava comprar uma, pois nunca havia saído da cidade por mais tempo que um final de semana - e outras coisas que porventura virem a ser necessárias. Afinal, nem sabia ao certo do que precisaria, pois não tinha idéia ainda do seu destino. Só possuía, consigo, a certeza que precisava se distanciar de tudo aquilo o quanto antes.
Tudo isso lhe passou pela cabeça enquanto assinava o pedido de férias e se deslocava até a porta do seu chefe.
Estacou em frente à porta do chefe. E agora? Como começaria o assunto? Ele que, até o momento, mal havia olhado sua chefia olho no olho.
Não precisou pensar muito nisso. A porta se abriu no mesmo instante e o olhar inquisidor do seu chefe - calvo e grandalhão - pousou sobre ele.
Sem dizer "oi" ou "bom dia", M. logo disparou: -Aqui está meu pedido de férias!
O chefe levantou as sombrancelhas com olhar de surpresa, sem saber o que articular como fala.
Pegou o papel em silêncio, retornou à sua mesa, sentou, fez sinal para que M. também entrasse e falou com sua voz de trovão: - Entre, por favor, e feche a porta.
E M., desajeitado, sentindo que toda sua coragem havia se esvaído naquela única fala, fechou a porta e dirigiu-se à cadeira em frente à mesa do chefe, não sem antes tropeçar no tapete. Sentou pouco à vontade e aguardou o veredicto.
O chefe pousou os olhos no papel, levantou a sobrancelha como se esta lhe erguesse a cabeça e, olhando para M., perguntou: -Enfim, achei que iria ter que lhe impor suas férias novamente esse ano.
E ouvido isto, M. apenas conseguiu esboçar um meio sorriso amarelo, acompanhado com um suspiro de alívio. Pensou consigo que fora mais fácil que imaginava.
Viu o chefe assinar e em seguida entregar o pedido: - leve ao RH para que providenciem a papelada.
Quando já estava saindo, veio, como uma faca cortando o ar, a pergunta: - O que fará nas suas férias? Vai viajar?
Diante dessa pergunta inusitada, M. só conseguiu balbuciar uma resposta: - Vou sim.
- Para onde? - perguntou o chefe.
- Para o Oriente Médio. - se pegou respondendo sem pestanejar.
Outra levantada de sombrancelha. Com um ar de surpresa na voz, o chefe desejou boa viagem.
Então M. saiu pela porta, agora com o andar mais aprumado, se sentido mais valente do que há dez minutos atrás, sentou-se em seu lugar, trabalhou o resto do dia com mais leveza e, no final do expediente, conseguiu até cantarolar uma musiquinha enquanto ia para casa.
E nessa distração nem reparou que o sinal abriu. Dessa forma, também atravessou a rua sem perceber o táxi que vinha em sua direção.
Ouviu-se, então, depois, um baque surdo. O som de um corpo caindo ao chão. A multidão - como de costume - se aglomerou em torno do acidente. E no meio, M. jazia sem vida no chão.
Logo chegou o serviço de emergência, que retirou o corpo do asfalto e levou para a ambulância. Conferiu-se a pulsação. Nada. Um socorrista olhou para o outro e ambos tomaram nota da hora da morte - 18:30h de 22 de outubro de 2008.
Cobriram o corpo, não antes de perceber um leve sorriso de satisfação nos lábios do falecido.
(homenagem à Clarice Lispector)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Ilha de Avalon

(Uma forma poética de atravessar a Ponte Pedro Ivo Campos, em direção à Ilha de Florianópolis, em um dia de neblina e sol)




Estamos quase chegando. O sol limpa o olhar e ilumina o caminho que se abre. Já é possível visualizar a ponte - a travessia é iminente. Lá está ela, gigante, altiva, com sua curvatura elegante e precisa. Parece uma mãe que recebe o filho de braços abertos - venha em segurança, diz na entrada.
E assim atravessamos.
À medida que a transpúnhamos, sobrevinha uma névoa densa, que velava (e revelava) o novo mundo, tal como um portal.
Chegamos à Avalon, pensei, terra mágica de lendária fama.