domingo, 30 de agosto de 2009

Poeminha Bunda


Ilustração de Milton DaCosta

Se rego a flor
ou no seu rego
a flor tatuada
Regaço, recanto,
redondo reluz,
à luz da lua.
Segunda lua cheia.

Florianópolis, 24/fev/2006

Quando amanheço











Quando amanheço
a claridade invade,
(sem pedir licença)
adentrando no quarto
Como uma maré
Subindo e subindo.

Quando amanheço
a claridade, invasora,
lambe o pé da cama
escala o cobertor e
- sem piedade -
alveja meus olhos!

Não cedo, finjo descaso!
Como filho que finge não doer
a palmada pelo pai aplicada.
Orgulho? Preguiça?
Os dois.

Ao final cedo, vencido
pelo Dia, general em combate
que leva os louros da vitória
mandando embora meu mundo onírico
Onde tudo se é.
Basta querer.

Fpolis, fevereiro/2005.

sábado, 29 de agosto de 2009

Eu Não Existo Sem Você - Composição: Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes



Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você

Senhor M. - O pedido de férias

Não, não há o que se imaginar. Pensar já não é permitido.
Dentro da rotina do escritório, M. só consegue sentir que precisa de algo novo. Algo que lhe dê emoção, que palpite forte dentro de si. Só alguma coisa muito inusitada poderia lhe tirar da inércia que sentia, como se o dia-a-dia tivesse anestesiado seu ser - diria até um poder maior que morfina, pois o efeito desta tem prazo de validade.
Procurou à sua volta alguma coisa que lhe tirasse dessa pasmaceira, um olhar solidário, ou qualquer outro sinal, porém, viu apenas outros rostos cansados e embotados. Como se todas as pessoas compartilhassem dessa mecanização da atividade mental. Todas apenas carimbavam, viravam folhas, imprimiam relatórios, e toda essa parafernália da automação de um escritório. Dados, planilhas, conferências, burocracia e mais burocracia.
Precisava escapar dali! A sobrevivência de sua identidade e individualidade dependiam disto! Não conseguia mais admitir permencer mais um dia nessa roda-viva.
Tinha vontade de fazer algo novo! Férias- pensou M. Talvez um safári ou uma viagem sem rumo pelos países do Oriente Médio. Algo que fizesse o coração bombar com mais vontade a vida por suas veias.
Decidiu então redigir seu pedido de férias ao chefe. No pedido, marcou o início de suas férias para a semana subsequente. Não queria perder mais um minuto. Estando ainda na quarta-feira, seria possível providenciar as passagens, uma mala - precisava comprar uma, pois nunca havia saído da cidade por mais tempo que um final de semana - e outras coisas que porventura virem a ser necessárias. Afinal, nem sabia ao certo do que precisaria, pois não tinha idéia ainda do seu destino. Só possuía, consigo, a certeza que precisava se distanciar de tudo aquilo o quanto antes.
Tudo isso lhe passou pela cabeça enquanto assinava o pedido de férias e se deslocava até a porta do seu chefe.
Estacou em frente à porta do chefe. E agora? Como começaria o assunto? Ele que, até o momento, mal havia olhado sua chefia olho no olho.
Não precisou pensar muito nisso. A porta se abriu no mesmo instante e o olhar inquisidor do seu chefe - calvo e grandalhão - pousou sobre ele.
Sem dizer "oi" ou "bom dia", M. logo disparou: -Aqui está meu pedido de férias!
O chefe levantou as sombrancelhas com olhar de surpresa, sem saber o que articular como fala.
Pegou o papel em silêncio, retornou à sua mesa, sentou, fez sinal para que M. também entrasse e falou com sua voz de trovão: - Entre, por favor, e feche a porta.
E M., desajeitado, sentindo que toda sua coragem havia se esvaído naquela única fala, fechou a porta e dirigiu-se à cadeira em frente à mesa do chefe, não sem antes tropeçar no tapete. Sentou pouco à vontade e aguardou o veredicto.
O chefe pousou os olhos no papel, levantou a sobrancelha como se esta lhe erguesse a cabeça e, olhando para M., perguntou: -Enfim, achei que iria ter que lhe impor suas férias novamente esse ano.
E ouvido isto, M. apenas conseguiu esboçar um meio sorriso amarelo, acompanhado com um suspiro de alívio. Pensou consigo que fora mais fácil que imaginava.
Viu o chefe assinar e em seguida entregar o pedido: - leve ao RH para que providenciem a papelada.
Quando já estava saindo, veio, como uma faca cortando o ar, a pergunta: - O que fará nas suas férias? Vai viajar?
Diante dessa pergunta inusitada, M. só conseguiu balbuciar uma resposta: - Vou sim.
- Para onde? - perguntou o chefe.
- Para o Oriente Médio. - se pegou respondendo sem pestanejar.
Outra levantada de sombrancelha. Com um ar de surpresa na voz, o chefe desejou boa viagem.
Então M. saiu pela porta, agora com o andar mais aprumado, se sentido mais valente do que há dez minutos atrás, sentou-se em seu lugar, trabalhou o resto do dia com mais leveza e, no final do expediente, conseguiu até cantarolar uma musiquinha enquanto ia para casa.
E nessa distração nem reparou que o sinal abriu. Dessa forma, também atravessou a rua sem perceber o táxi que vinha em sua direção.
Ouviu-se, então, depois, um baque surdo. O som de um corpo caindo ao chão. A multidão - como de costume - se aglomerou em torno do acidente. E no meio, M. jazia sem vida no chão.
Logo chegou o serviço de emergência, que retirou o corpo do asfalto e levou para a ambulância. Conferiu-se a pulsação. Nada. Um socorrista olhou para o outro e ambos tomaram nota da hora da morte - 18:30h de 22 de outubro de 2008.
Cobriram o corpo, não antes de perceber um leve sorriso de satisfação nos lábios do falecido.
(homenagem à Clarice Lispector)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Ilha de Avalon

(Uma forma poética de atravessar a Ponte Pedro Ivo Campos, em direção à Ilha de Florianópolis, em um dia de neblina e sol)




Estamos quase chegando. O sol limpa o olhar e ilumina o caminho que se abre. Já é possível visualizar a ponte - a travessia é iminente. Lá está ela, gigante, altiva, com sua curvatura elegante e precisa. Parece uma mãe que recebe o filho de braços abertos - venha em segurança, diz na entrada.
E assim atravessamos.
À medida que a transpúnhamos, sobrevinha uma névoa densa, que velava (e revelava) o novo mundo, tal como um portal.
Chegamos à Avalon, pensei, terra mágica de lendária fama.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

De tanto pensar...

De tanto pensar parou.
Olhou para um lado...
depois para o outro...
pensando que o tempo passou
e que ficou só, de tanto pensar
[até porque, como diz o ditado,
"de pensar morreu um burro"
- ou será que morreu burro?]"

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Poema da Saudade



Essa noite foi difícil ficar sem vc.
Sinto falta do seu cheiro, do toque da sua pele na minha, em nossas pernas entrelaçadas.
Sinto falta do espaço que ocupas nos meus braços e dos nossos abraços.
Sinto falta de você no meu quarto, na minha cama, na minha vida.
Sinto falta do teu olhar cumprido, me mirando, com cara de quem quer aprontar.
Sinto falta da sua boca na minha, de você me apertando com jeito de quero mais.
Queria sentir nossos corpos se tocando, pele na pele.
De preferência nus, pra ser um momento só, completo.
Talvez isso não aplaque minha saudade. Tampouco a falta de ter você sempre perto.
Mas fará sentir que sou sua, assim como você é meu, não como um pertence, mas como origem, simbiose, derivação.
Essência da mesma fonte, vibrando no mesmo compasso.

Floripa, 02/12/2008